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Home » Poesias Segunda-Feira, 26 de Junho de 2017







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por: Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco



se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem

no céu de chumbo, e suas formas pretas



lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior, vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado,



a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.



Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável



pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar



toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.



Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter usado os já perdera



e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,



convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mítica das coisas,



assim me disse, embora voz alguma

ou sopro ou eco ou simples percussão

atestasse que alguém, sobre a montanha,



a outro alguém, noturno e miserável,

em colóquio se estava dirigindo:

"O que procuraste em ti ou fora de



teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,

e a cada instante mais se retraindo,



olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência

sublime e formidável, mas hermética,



essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,

que nem concebes mais, pois tão esquivo



se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste... vê, contempla,

abre teu peito para agasalhá-lo.”



As mais soberbas pontes e edifícios,

o que nas oficinas se elabora,

o que pensado foi e logo atinge



distância superior ao pensamento,

os recursos da terra dominados,

e as paixões e os impulsos e os tormentos



e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber



no sono rancoroso dos minérios,

dá volta ao mundo e torna a se engolfar,

na estranha ordem geométrica de tudo,



e o absurdo original e seus enigmas,

suas verdades altas mais que todos

monumentos erguidos à verdade:



e a memória dos deuses, e o solene

sentimento de morte, que floresce

no caule da existência mais gloriosa,



tudo se apresentou nesse relance

e me chamou para seu reino augusto,

afinal submetido à vista humana.



Mas, como eu relutasse em responder

a tal apelo assim maravilhoso,

pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,



a esperança mais mínima — esse anelo

de ver desvanecida a treva espessa

que entre os raios do sol inda se filtra;



como defuntas crenças convocadas

presto e fremente não se produzissem

a de novo tingir a neutra face



que vou pelos caminhos demonstrando,

e como se outro ser, não mais aquele

habitante de mim há tantos anos,



passasse a comandar minha vontade

que, já de si volúvel, se cerrava

semelhante a essas flores reticentes



em si mesmas abertas e fechadas;

como se um dom tardio já não fora

apetecível, antes despiciendo,



baixei os olhos, incurioso, lasso,

desdenhando colher a coisa oferta

que se abria gratuita a meu engenho.



A treva mais estrita já pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,

e a máquina do mundo, repelida,



se foi miudamente recompondo,

enquanto eu, avaliando o que perdera,

seguia vagaroso, de mãos pensas.